MARIA E a memória de uma rua que sabia o meu nome antes de eu lembrar do meu.
ORQUÍDEA (voz suave, sem corpo visível) Chamas têm pressa; remendos aprendem a esperar.
ORQUÍDEA Guarda cada linha. Elas te dirão de onde soprou o vento que te trouxe.
(Luz quente. Som de ondas ao longe. MARIA segura um vaso pequeno, com uma orquídea cujo pétala tem um remendo — uma mancha branca costurada com linha azul.)
(MARIA toca a pétala uma última vez. Puxa o fio azul entre os dedos e, por um instante, o tecido parece pulsar como pele antiga. Ela solta o fio; ele volta ao lugar.)
MIGUEL E perder a história?
MARIA (abrindo os olhos) Sabe, quando voltei, pensei em arrancar o remendo. Tirá-lo e ficar com a flor inteira de novo.
MARIA Perder a história. (ela ri) Não. Fico com o remendo. É mapa das viagens.
MIGUEL Então deixa que Canidelo te reconheça primeiro. Depois, tu reconheces a ti.
MARIA Três invernos desde que a trouxe de Lisboa. Pensei que ia morrer no caminho. Mas ela abriu — com um pedacinho costurado. Como eu.
MIGUEL (erguendo o regador) E eu passo cá amanhã. Levo a tesoura só para as ervas daninhas.